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domingo, 22 de outubro de 2017

POEMA A UM AMOR NÃO REALIZADO
por profa. Eliane Oliveira

Ontem, no dia do poeta, escrevi um poema de amor para um amor não realizado. Poetas escrevem sobre o amor e professoras de yoga também amam. Gosto de me expor no humano que sou para desfazer no outro e em mim mesma qualquer projeção ou ideia mítica de que "professoras de yoga, a um passo da iluminação ou já iluminadas, tem respostas para tudo, não vivem medos, dúvidas, desafios e contradições, não fazem xixi, não beijam na boca, não sentem dor, nem ficam doentes", entre outras coisas. Se você pensava assim de mim, vai se decepcionar (e, nesse sentido, é bom) quando ler os meus poemas de amor. No amor e nos poemas (e também no yoga), tudo se aprende através do humano. O humano é ponte para iluminação. Somente se a alma se desnuda pode encontrar a Deus. Sigamos os passos dos que se tornaram ensinadores somente porque foram humanos, demasiadamente humanos. Om Sri Gurubyo Namah! Salve todos os mestres! Eliane Oliveira



POEMA A UM AMOR QUE NÃO SE REALIZOU
(21/10/2017)
por profa. Eliane Oliveira


Falo do amor que escorreu pelas mãos feito água.
Foi morar na Terra dos amores não realizados.
Vive lá agora,
e, sendo sempre amor mas de outro jeito,
ali sempre pulsará no tempo onde não há tempo.
Porque amor não é coisa que se possa morrer.
Amor fica, mesmo que vá.
Não volta, mas fica guardado.
Na Terra dos amores não realizados, não se deixa de amar alguém por esse não ter sido seu par.
Não ter sido par não é mais valioso do que ter sido amor.
O impossível foi a realização do amor em par, mas não do amor em si.
Um baú submerso no oceano da Terra dos amores não realizados protege o ouro puro:
a única noite num bar do subúrbio em que estiveram realmente juntos,
os beijos que arrepiaram sua pele,
as linhas da palma da mão que revelavam seus segredos,
os pés que perdiam o chão e o coração que saltava quando seus olhares se cruzavam pela rua,
o vinho prometido que renderia definitivamente quem já tem fraqueza para bebida,
a esperança por descobrirem juntos em que pontos o prazer chegaria rápido aos seus corpos,
a carta de amor explícita, escrita no impulso de quem ainda não percebia que se apaixonara,
as músicas tocadas ao piano, gravadas e presenteadas para seduzir os seus ouvidos,
o filme francês bonito, divertido e sensível enviado como um último pedido para um reencontro.
Na Terra dos amores não realizados, tudo, até o que foi desencontrado, não comunicado, mal entendido, confundido, delirado, ambíguo, oscilante, desconfiado, temido, chorado, entristecido, embravecido, desistido e despedido é percebido e aceito como tendo sido exatamente do jeito que era pra ser.
Porque lá se sabe: amor é regido pelo Mistério,
que escrevendo certo por linhas tortas, une no tanto e na forma que deve ser,
que sopra onde quer e junta as partes até onde for pra juntar,
que tece dois em zigue-zague, sem dar pistas sobre para onde a história irá.
Pisa-se no invisível quando se ama.
Tateia-se como cego quando se ama.
Cambaleia-se como bêbado quando se ama.
Amor não se vive em linha reta nem é feito só de peças angulares em quebra-cabeças que já conhecemos.
Falo do amor que escorreu pelas mãos feito água.
Vive agora na Terra dos amores não realizados.
Hoje, encontrei-me com ele no pensamento.
Segurei as suas mãos e olhando em seus olhos, disse-lhe:
"N, sim, seja feliz, muito muito feliz.
 À Deus".


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