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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

FUNDURAS EM MIM - por Profa. Eliane Oliveira


O outro lado do raso. Fundo. Olhava para a água de lá. Sete ou oito anos. Pés na beirada da borda. Densidade azul hipnótica. Chamava-me para dentro. Era mais forte que eu. Tinha que pular. Esticava os braços acima da cabeça, unia as mãos em prece e, como uma seta, embicava o corpo para a água. Pulava. De cabeça. Ai, que coisa boa! Piscina do clube. Eu não sabia (oficialmente) nadar. Quer dizer, não aprendi em escola. Aprendi observando meus irmãos mais velhos, sincronizando braçadas alternadas com pernadas frenéticas. Copiava os movimentos deles. Nadava. Havia a piscininha das crianças (bobinha para meus desejos edípicos de piscina) e a piscina dos adultos, semiolímpica, com arraias, fundo com uns dez metros de profundidade (Aí, sim). Queria essa. Na borda lateral do fundo, um trampolim alto. Bem alto. Dez metros, talvez. Não, não pulava do trampolim. Mas pulava dos blocos de concreto sobre a borda da piscina, que elevava, há mais um metro do chão, o salto para o fundo. Deus, cadê os pais dessa criança? Meu pai me monitorava. Da borda da piscina, pertinho de mim, ficava me acompanhando em meu nado. Observava atento. Caso precisasse, saltaria para me acudir. Mas nunca me negou, em meu impulso, de ir lá, do outro lado do raso, pular no fundo. Sozinha. Pelo contrário, no fundo, ele vibrava com minha vontade e meu atrevimento: “Vai lá, minha filha! Vai (pro)fundo!”. Do fundo pro raso. Do raso pro fundo. Dezenas de vezes. Era uma passagem que só eu podia fazer. Sob o encorajamento, cumplicidade e cuidados do meu pai.

Na praia (ó Mar, doce e amado Mar, poderia falar somente de você hoje, já que és, pra mim, um grande mestre), era semelhante. Sem graça tomar banho de baldinho na beirinha, antes do quebra-mar. Eu queria era ultrapassar a linha das ondas espumantes, e alcançar lá onde o mar é caudaloso, grande, escuro, onde não se sente a areia sob os pés, nem se estremece com impacto das ondas. As ondas nervosas quebram lá na frente. Aqui, tudo é calmo. Aqui, o som é silencioso. Aqui, não há perigo. Oito ou nove anos. Minha mãe, ficava lá na beira da praia fazendo com o braço um movimento gigante de “vem pra cá”, “aí já está bom”, “não vão tão longe”. Eu não estava sozinha. Com meu pai e irmãos. “Me leva lá pro fundo?” - pedia. Levavam-me, mas só quando o mar podia me receber, pequenina, sem muitos tropeços e correntezas. O Rinaldo, meu irmão mais velho depois de mim, com aquelas suas famosas brincadeiras em tom meio macabro, ia me carregando pelos braços para o fundo, enquanto dizia: “Você confia em mim? Vou te levar pras profundezaaasss”. Guiavam-me: “Quando vier a onda, você fura”. Ai, que coisa boa! A onda passava levinha sobre mim, suave, sem raiva, e o mar grande me abraçava de novo. Pezinhos batendo sob a água para o corpo flutuar no mar, no fundo. A essa altura, o mar era Oceano. Um lugar muito longe da terra. Um céu do mar. Um lugar fora de qualquer lugar. De pura inutilidade. Sagrado. Segredo que se aprende com quem já experimentou, aprendeu e agora ensina, por nenhuma outra razão, senão a vontade de ver você tão feliz em experimentar essa experiência como ela própria foi feliz, quando a experimentou: “vai por aqui pra ver uma coisa”, “olha só isso”, “sentiu?”, “tenta deste jeito”. Mestres. Mas, como o mar é beira e fundo, o aprendizado apenas se completa quando se retorna para a beira: “Quando vier a onda, vai com ela”. Projetavam-me para eu pegar jacaré sobre a onda, e, então, voltar à praia.
Vinte litros num balde de água. No quintal da casa da Água Santa, um bairro do subúrbio do Rio. Vivi ali por vinte anos. Minha mãe enchia um balde de água, daqueles de vinte litros. O balde era quase do meu tamaninho. Quatro, cinco ou seis anos. Eu, meus irmãos e irmã juntos brincando no quintal, enquanto ela aguava o jardim. O que eu fazia? Metia a cabeça dentro do balde calmamente e ficava com a cabeça afundada, ouvindo o nada, por alguns segundos. Ai, que coisa boa (Já fez essa experiência? Ouve-se realmente o nada. Já ouviu o nada?)! Depois, eu retirava a cabeça, jogando o cabelo tipo “boi lambeu”, embebido de água, para fora do balde, a qual fazia um percurso extenso, molhando tudo a volta (tudo bem, porque tudo estava molhado mesmo!). Liberdade se encontra num balde de vinte litros. Mãe dizia que daria dor no ouvido. Vigiava-me para que as minhas experiências subaquáticas fossem só algumas, mas nunca me impediu que eu me atirasse nelas. Pelo contrário, eu ouvia de seus olhos um entusiasmo e um incentivo: “Vai lá, minha filha, ouve o fundo! Agora, volta. Fique aqui agora, à tona, no colinho da mamãe e me diga o que trouxe para nós lá debaixo d’água, depois do seu mergulho”.

Ou então era na caixa d’água de amianto, que foi comprada para ser caixa d’água, mas não foi usada como caixa d’água. 2.000 litros d’água. Profundidade que me cabia sentada e/ou com as pernas esticadas na horizontal. Virou piscina. Ali, durei mais tempo. Por anos, enchíamos “a caixa” para “tomar banho de caixa”. Eu ia me afundar “na caixa”, nas manhãs, tardes ou noites quentes de verão. Minha mãe era quem vinha verificar, de vez em quando, se eu ainda estava viva, de tão quieta. E depois me deixava. Quieta. Com o corpo todo afundado, só a cabeça pra fora. Como um submarino. A água não se mexia. Ouvindo o som dos pássaros nas árvores do quintal quando era dia; olhando as estrelas do céu, quando era noite. Experiências de meditação. Imersão. Útero. Inconsciente. Calmo. Meia hora, uma hora. Tempo sem tempo. Eternidade. Até emergir, ficar novamente de pé. E, embebida das funduras em mim, agora voltar para funduras fora de mim, no convívio da casa e da família.

A vida imita a vida. Uma vez ido aos fundos, você não poderá nunca mais não ir a eles (ou, pelo menos, ignorá-los). As consequências são irreversíveis. Possivelmente, você se interessará por funduras de todas as dimensões, para vivê-las à tona (Se não for para trazê-las à tona e vivê-las, o fundo será tão raso quanto o raso é para o raso. Fundo e raso são o mesmo todo: um só é um com o outro). Estudo. Pesquisa. As entranhas dos conhecimentos. As essências. As raízes. Poesia. A alma humana. Natureza. Oração. Silêncio. Música, antropologia, yoga. Antigas tradições filosóficas, espiritualistas e religiosas. Meditação. Deus. Entrega. Confiança. No amor, apaixonar-se-á perdidamente, mergulhando de cabeça em histórias profundas e duradouras. Amigos serão como irmãos e irmãos como amigos. Intuições, transmissão de pensamento, sincronicidade, premonição acontecerão frequentemente, pois serão naturais e não sobrenaturais. Sua natureza estará conectada ao Mistério que mora no profundo. O mundo, a sociedade, as culturas e cada pessoa terão a mesma importância pra você que você tem pra você, porque você descobrirá que você e o outro são interdependentes. E que é preciso cuidar (curar) da alma deles como você deve cuidar (curar) da sua. Tudo está enredado.

Você pagará mico. O mico não é muito aceito nas instâncias do raso, mas nos fundos, o mico é uma coisa muito legal. Uma ponte para o Samadhi (iluminação). Eu, por exemplo, sou uma grande pagadora de micos. Especialmente para manifestar amor, de qualquer tipo (fraternal, filial ou “namoral” - não encontrei outro adjetivo). Não fique com vergonha alheia de mim nem tenha medo de mim achando que eu sou maluca, por exemplo, eu manifestar meus sentimentos, ideias, pensamentos a você, às vezes sobre você, de um jeito tão claro, entusiasmado e direto, que você, enrubescendo-se, vai querer que o chão se abra para enfiar a cabeça, ou atravessar a rua, fingindo que não me conhece. Será tão visceral e impulsivo que, às vezes, você não saberá o que fazer objetivamente com a emoção que lhe causou. Nessa hora, não faça nada objetivamente. Respire. Receba e aceite. Se for possível, retribua. Se não for possível, disfarce e vá ali tomar uma água.

Você também poderá deixar as pessoas preocupadas com você, por causa da sua intensidade. Comigo, já houve quem ficasse em aflição, quando me viu chorando aos soluços após ouvir Vandeli, assistir Amelie Poulain ou ler Rubem Alves. A pessoa ficou tão nervosa em me ver “entrar pra dentro” que precisei tranquilizá-la: “Eu só estou chorando. Deixa eu chorar. Calma!”. Em outras palavras: “Não pense que me afogarei no caminho até o fundo. Dá-me espaço para me jogar nesse Oceano. Permita-me entrar para ver Deus. Vou ali e volto. E, quando voltar, estarei um pouco mais aqui e agora, com você e com o mundo. Quando, então, poderei ver Deus também na superfície”.

Entra no silêncio
longe dos outros
e ouve as palavras que se dirão
depois de um longa espera.
Terias coragem de exibir tua nudez frente aos estranhos?
Eles irão rir.
como, então, poderias orar na sua frente?
Oração, nudez completa,
palavra que sobe do fundo escuro e revela.

Entra no silêncio
longe das muitas palavras
e escuta uma única Palavra
que irá subir do fundo do mar.
Uma única Palavra é mais poderoso que muitas:
pureza de coração é desejar uma só coisa.
Uma única Palavra:
aquela que dirias se fosse a última a ser dita
Basta ouvir uma vez e, então,
o silêncio. (Rubem Alves, In: Pai Nosso, Edições Paulinas, 1987)

domingo, 22 de outubro de 2017

POEMA A UM AMOR NÃO REALIZADO
por profa. Eliane Oliveira

Ontem, no dia do poeta, escrevi um poema de amor para um amor não realizado. Poetas escrevem sobre o amor e professoras de yoga também amam. Gosto de me expor no humano que sou para desfazer no outro e em mim mesma qualquer projeção ou ideia mítica de que "professoras de yoga, a um passo da iluminação ou já iluminadas, tem respostas para tudo, não vivem medos, dúvidas, desafios e contradições, não fazem xixi, não beijam na boca, não sentem dor, nem ficam doentes", entre outras coisas. Se você pensava assim de mim, vai se decepcionar (e, nesse sentido, é bom) quando ler os meus poemas de amor. No amor e nos poemas (e também no yoga), tudo se aprende através do humano. O humano é ponte para iluminação. Somente se a alma se desnuda pode encontrar a Deus. Sigamos os passos dos que se tornaram ensinadores somente porque foram humanos, demasiadamente humanos. Om Sri Gurubyo Namah! Salve todos os mestres! Eliane Oliveira



POEMA A UM AMOR QUE NÃO SE REALIZOU
(21/10/2017)
por profa. Eliane Oliveira


Falo do amor que escorreu pelas mãos feito água.
Foi morar na Terra dos amores não realizados.
Vive lá agora,
e, sendo sempre amor mas de outro jeito,
ali sempre pulsará no tempo onde não há tempo.
Porque amor não é coisa que se possa morrer.
Amor fica, mesmo que vá.
Não volta, mas fica guardado.
Na Terra dos amores não realizados, não se deixa de amar alguém por esse não ter sido seu par.
Não ter sido par não é mais valioso do que ter sido amor.
O impossível foi a realização do amor em par, mas não do amor em si.
Um baú submerso no oceano da Terra dos amores não realizados protege o ouro puro:
a única noite num bar do subúrbio em que estiveram realmente juntos,
os beijos que arrepiaram sua pele,
as linhas da palma da mão que revelavam seus segredos,
os pés que perdiam o chão e o coração que saltava quando seus olhares se cruzavam pela rua,
o vinho prometido que renderia definitivamente quem já tem fraqueza para bebida,
a esperança por descobrirem juntos em que pontos o prazer chegaria rápido aos seus corpos,
a carta de amor explícita, escrita no impulso de quem ainda não percebia que se apaixonara,
as músicas tocadas ao piano, gravadas e presenteadas para seduzir os seus ouvidos,
o filme francês bonito, divertido e sensível enviado como um último pedido para um reencontro.
Na Terra dos amores não realizados, tudo, até o que foi desencontrado, não comunicado, mal entendido, confundido, delirado, ambíguo, oscilante, desconfiado, temido, chorado, entristecido, embravecido, desistido e despedido é percebido e aceito como tendo sido exatamente do jeito que era pra ser.
Porque lá se sabe: amor é regido pelo Mistério,
que escrevendo certo por linhas tortas, une no tanto e na forma que deve ser,
que sopra onde quer e junta as partes até onde for pra juntar,
que tece dois em zigue-zague, sem dar pistas sobre para onde a história irá.
Pisa-se no invisível quando se ama.
Tateia-se como cego quando se ama.
Cambaleia-se como bêbado quando se ama.
Amor não se vive em linha reta nem é feito só de peças angulares em quebra-cabeças que já conhecemos.
Falo do amor que escorreu pelas mãos feito água.
Vive agora na Terra dos amores não realizados.
Hoje, encontrei-me com ele no pensamento.
Segurei as suas mãos e olhando em seus olhos, disse-lhe:
"N, sim, seja feliz, muito muito feliz.
 À Deus".


domingo, 8 de outubro de 2017

POR QUE O BUDDHA PERMANECEU MEDITANDO
Thich Nhat Hanh



"Nada pode sobreviver sem alimento, incluindo a felicidade"




Quando eu era um jovem monge, eu me perguntava por que o Buddha continuou praticando plena consciência e meditação mesmo depois que ele já havia se tornado um Buddha. Agora eu sei que a resposta é simples o bastante para se perceber. Felicidade é impermanente, como tudo o mais. Para que a felicidade seja ampliada e renovada, temos que aprender a alimentar nossa felicidade.

Nada pode sobreviver sem alimento, incluindo a felicidade; sua felicidade pode morrer se você não souber como alimentá-la. Se você cortar uma flor, mas não a coloca na água, a flor vai murchar em poucas horas.

Mesmo se a felicidade já está manifestada, temos que continuar a alimentá-la. Esta prática às vezes é chamada de autorregulação, e é muito importante. Podemos regular nossos corpos e mentes para a felicidade através das cinco práticas de: “Deixar ir”, “Atraindo sementes positivas”, “Plena Atenção”, “Concentração” e “Discernimento”.


Thich Nhat Hanh. In: No Mud, No Lotus: The Art of Transforming Suffering, United Buddhist Church, 2014.

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Sorria, Solte
Thich Nhat Hanh













Quando você tem uma ideia que te faz sofrer, deveria deixá-la ir, mesmo (ou talvez especialmente) se é uma ideia sobre sua própria felicidade. Cada pessoa e cada nação têm uma ideia de felicidade. Em alguns países, pessoas pensam que uma ideologia em particular deve ser seguida para trazer felicidade ao país e ao seu povo. Eles querem que todos aprovem a sua ideia de felicidade e acreditam que os que não estão a favor deveriam ser presos ou colocados em campos de concentração. É possível manter tal pensamento por cinquenta ou sessenta anos, e neste tempo criar uma tragédia enorme, apenas por causa desta ideia de felicidade.

Talvez você também seja prisioneiro de sua própria noção de felicidade. Há milhares de caminhos que levam à felicidade, mas você aceita somente um. Não considerou outros caminhos porque pensa que o seu é o único. Você seguiu este caminho com toda a sua força e, portanto os outros caminhos, os milhares de outros caminhos permaneceram fechados para você.

Deveríamos ser livres para experimentar a felicidade que apenas vem a nós sem ter que procurá-la. Se você é uma pessoa livre, a felicidade pode vir para você num estalo. Olhe para a lua. Ela viaja no céu completamente livre, e esta liberdade produz beleza e felicidade. Eu estou convencido que a felicidade não é possível a menos que seja baseada na liberdade. Se você é uma mulher livre, se você é um homem livre, desfrutará de felicidade. Mas se é um escravo, mesmo que apenas escravo de uma ideia, a felicidade será muito difícil de atingir. É por isso que você deveria cultivar a liberdade, incluindo a liberdade de seus próprios conceitos e idéias. Deixe suas ideias irem, mesmo que não seja fácil.

Conflitos e sofrimento são comumente causados por uma pessoa que não quer liberar seus conceitos e ideias sobre algo. Em uma relação entre pai e filho, por exemplo, ou entre parceiros, isto acontece o tempo todo. É importante treinar a si mesmo para deixar ir suas ideias sobre as coisas. Liberdade é cultivada pela prática de deixar ir. 

Se você olhar profundamente, poderá ver que está se segurando a um conceito que está te fazendo sofrer um bocado. Você é inteligente o suficiente, você é livre o suficiente para desistir dessa ideia?

       Estou me tornando calmo
Estou deixando ir 
Tendo deixado ir, a vitória é minha
Eu sorrio
Eu sou livre

O Dharma que o Buda apresentou é radical. Contém medidas radicais para cura, para transformação da situação atual As pessoas se tornam monges e monjas porque entendem que a liberdade é preciosa. O Buda não precisava de uma conta no banco ou uma casa. No tempo dele, as posses de um monge ou monja eram limitadas aos robes que vestiam e uma tigela para coletar comida. Liberdade é muito importante. Você não deveria sacrificar ela por nada, porque sem liberdade não há felicidade.


(Do livro “You are here”, de Thich Nhat Hanh)
(Tradução para o português: leonardo Dobbin)
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A prática de deixar ir
Thich Nhat Hanh




















Se há coisas que te fazem sofrer, você tem que saber como deixá-las ir. Felicidade pode ser obtida soltando, deixando ir, incluindo deixando ir suas ideias sobre felicidade. Você imagina que certas condições são necessárias para sua felicidade, mas olhando profundamente se revelará para você que essas noções são exatamente as coisas que ficam no caminho da felicidade e te fazem sofrer.

Um dia o Buda estava sentado na floresta com alguns monges. Eles tinham acabado de almoçar e já iam começar um Compartilhamento sobre o Dharma quando um fazendeiro se aproximou deles. O fazendeiro disse: “Veneráveis monges, vocês viram minhas vacas por aqui? Eu tenho dezenas de vacas e elas fugiram. Além disso, eu tenho cinco acres de plantação de gergelim e este ano os insetos comeram tudo. Eu acho que vou me matar. Eu não posso continuar a viver assim”.

O Buda sentiu forte compaixão pelo fazendeiro. Ele disse: “Meu amigo, me desculpe, não vimos suas vacas vindo nessa direção”. Quando o fazendeiro se foi, o Buda se voltou para seus monges e disse: “Meus amigos, sabem por que vocês são felizes? Porque vocês não têm vacas para perder”.

Eu gostaria de dizer a mesma coisa para vocês. Meus amigos, se vocês têm vacas, têm que identificá-las. Você pensa que elas são essenciais para sua felicidade, mas se você praticar olhar em profundidade, entenderá que são estas mesmas vacas que trazem sua infelicidade. O segredo da felicidade é ser capaz de deixar ir suas vacas, soltá-las. Você deveria chamar suas vacas por seus verdadeiros nomes.

Eu te garanto que quando você deixar suas vacas ir embora, você experimentará felicidade porque quanto mais liberdade você tem, mais felicidade você terá. O Buda nos ensinou que alegria e prazer são baseados na desistência, em deixar ir. “Eu estou deixando ir” é uma prática poderosa. Você é capaz de deixar as coisas irem? Se não for, seu sofrimento continuará.

Você deve ter a coragem de praticar o “deixar ir”, soltar. Você precisa desenvolver um novo hábito – o hábito de concretizar a liberdade. Você precisa identificar suas vacas. Você precisa considerá-las como um vínculo com a escravidão. Você precisa aprender como o Buda e seus monges fizeram, a libertar suas vacas.  É a energia de plena atenção que te ajuda a identificar suas vacas e chamá-las por seus verdadeiros nomes.

(Do livro “You are here”, de Thich Nhat Hanh)
(Tradução para o português: leonardo Dobbin)

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domingo, 2 de julho de 2017


POR QUE PRATICO YOGA
Texto da profa. Rosane Oliveira

















Quando fazemos yoga conhecemos os limites e potencialidades do nosso corpo físico. Aprendemos a nos respeitar e movimentar melhor. Podemos corrigir vícios posturais, e até conquistar mais alongamento e flexibilidade. Reaprendemos a respirar, a aumentar nossa capacidade respiratória, a fechar os olhos, fazer silêncio. Meditar.

É preciso de dedicação para ser um bom praticante de yoga. Precisamos exercitar a disciplina também. Ser disciplinado com nossa prática pessoal, com a boa execução de nossa série de exercícios, respirações e posturas, com o horário e duração da aula. Tudo isso é importante.

Mas a prática de Yoga propõe mais.

Um dos significados da palavra Yoga, em sânscrito, é unidade, integração. Yoga é um caminho para dentro de si mesmo, que, ao mesmo tempo, nos leva para o outro, o que conhecemos e o que não conhecemos. Através do Yoga, podemos vivenciar uma integração conosco, com tudo e todos a nossa volta. Podemos perceber que somos vida.
Fazer yoga só faz sentido se tentamos vivenciar e aplicar em nosso cotidiano tudo o que experimentamos na aula. Mais do que “fazer” yoga é preciso “praticar” yoga.

Praticar Yoga é conquistar flexibilidade, maleabilidade não apenas no corpo físico, mas, principalmente, em nossas ações e pensamentos, quando a atitude de ser flexível for necessária conosco e com o outro, para que não endureçamos. É buscar ter calma e serenidade diante dos diversos desafios que surgem ao longo do dia (e surgem, vão continuar surgindo), através da respiração suave, profunda e consciente, através da observação do silêncio interior. É ter equilíbrio, paciência e força interior para superar as dificuldades e desânimos que, vez por outra, nos alcançam - qualidades que podem vir da dedicação, persistência e disciplina mental. É poder viver com leveza, apesar dos pesares.

Yoga não termina quando saímos da sala de prática. Pelo contrário. O Yoga deve continuar em nossas vidas, nos nossos cotidianos, nas nossas relações, nos lugares que frequentamos.

Para mim, Yoga é uma escolha, um estilo de vida. A sala da prática é o lugar onde me alimento e me fortaleço. Um dos lugares onde posso me nutrir. É onde posso encontrar pares, companheiras e companheiros de caminhada, e compartilhar meus aprendizados e transformações internas (nem sempre fáceis de aceitar), mesmo que no silêncio da aula. Partilhas também se fazem com olhares, presença solidária, um dando força pro outro, um apoiando o outro, sem que palavras precisem ser ditas.

Yoga é unidade com a vida, comigo, com o outro. Com você. Yoga não termina, mas continua pela vida inteira. 

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segunda-feira, 15 de maio de 2017

COM-TATO (Texto da profa. Eliane Oliveira)

 

  









Escreva-me uma carta.

Gosto de textos feitos com palavra.

Pode ser longo.

Pode ser curto.

Mas escreva-me palavras.

Comece com data no cabeçalho e depois com o meu nome na saudação.

Algo do tipo: Rio, 14/05/17, Oi Eliane.

Escreva-me um bilhete.

Prefira papel e caneta.

Email serve mais ou menos. Não haverá nada mais visceral que uma folha escrita com suas letras. Suas.

Papel seu que tocarei e terei meu depois de ter sido tocado por você que escreveu.

Papel que carrega o suor das suas mãos, a tinta da sua caneta, a força da sua intenção, o tempo escolhido do seu dia.

Se o assunto for funcional, tudo bem o virtual.

É mais prático. Pá-pum.

Se o assunto for amizade ou amor, deve ser recebido, aberto, lido, comido, deglutido, ruminado, silenciado, guardado, sentido.

Quanto mais viscoso, quanto mais textura mais presente será sua presença.

É preciso que haja “face” (rosto, pele, olhos, cheiro) e não feice (de facebook).

Coloque na caixa do meu correio, use o serviço postal ou deixe debaixo da minha porta.

Descobrirei o desenho da sua letra e já conhecerei você ao conhecê-la.

Pode também me telefonar.

Gosto de ouvir a voz de quem fala.

Na hora, os dois na linha, um aqui, outro lá.

Gravações da fala parecem telefonemas, só que não são.

Gravações podem ser cortadas, desfeitas, editadas.

Em telefonemas, presenciarei sua reação direta, espontânea, reticente, sem tantos filtros.

Se preferir, estou em casa. Toque a campainha.

Quando você chegar, poderei tê-lo de perto, corporal.

Conversaremos à mesa do café com bolo ou na sala quase sempre meio bagunçada do dia-a-dia.

Se me vir na rua, no corredor, na portaria, na praça, no supermercado, se quiser falar comigo sobre algo sobre nós, deve falar a mim diretamente, reservadamente, e não na presença de outros, senão eu e você.

Que ninguém mais, a não ser nós dois, esteja entre nós para amenizar a tensão, o frio na barriga, a insegurança, o brilho nos olhos, a humanidade desse “com-tato”.

Assim, sim: a vida será real.

E quando finalmente nos tatearmos um ao outro, poderemos rir juntos.

Comentários a esse texto: eliane.martins.oliveira@gmail.com

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ENTENDE? (Texto da professora Eliane Oliveira) 

















O entendimento entre você (eu) e o outro, quando acontece, é uma espécie de milagre. 

O seu óbvio parece tão óbvio a você que, é óbvio - você pensa – que, ao ter dito o que você queria dizer, você se fez entender naquilo que desejava que o outro entendesse. Puro engano. Nada garante que o seu óbvio será entendido pelo outro, nem que você entenderá o óbvio do outro que o outro acha muito óbvio que você entenda. Você pode dizer A, com todas as cores e pausas didáticas, e o outro entender B em outros tons. O que o outro entende de você passa sempre pela filtragem do outro. E vice-versa. É claro que essa filtragem pode ser mais ou menos empática (quando quem escuta consegue se colocar no lugar de quem fala). Se o coração é amoroso, se o ego está calmo e largou o posto de “dono da cocada preta” ou “por cima da carne seca”, será possível vislumbrar algo mais próximo do outro que não é você. Mas, mesmo assim, mesmo tentando experimentar o outro na sua condição de outro totalmente outro, nunca seremos o outro. Não poderemos controlar o que será compreendido do lado de lá, nem o outro, do lado de cá.

Isso torna a comunicação um desafio (um trabalho, um exercício) de tradução e de desapego.

Teremos que nos empenhar em traduzir, em expressões (palavras ou ações) cada vez mais simples, o que vai no complexo de nossos pensamentos e sentimentos. E, depois disso, abandonar o controle sobre efeitos do que foi dito. Porque a comunicação, por si própria, irá nos ensinar sobre a precariedade de alcançarmos o entendimento do outro, que entende sempre com ouvidos de outro. Poderemos nos redizer ou reouvir o outro muitas vezes para “retentar” uma tradução mais próxima do que quisemos dizer e do que ele quis que entendêssemos. Voltar, explicar, refazer. “Desequivocar” o que for possível. 

Aqui, estou - é óbvio (risos pelo “óbvio” provavelmente não tão óbvio) - me referindo à precariedade do entendimento mútuo nas situações face-a-face, em que o diálogo é olho no olho, ao vivo, presencial, corporal. Dizem os especialistas: há virtualidade na comunicação e desvios no entendimento, mesmo na presencialidade. Como assim? É que aprendemos a manipular nossas máscaras. Não nos dizemos sempre francamente. Escondemos o que sentimos e o que pensamos. E, muitas vezes, mais inconscientes, somos ignorantes do que sentimos e pensamos. Mas, quando a virtualidade é usada consciente e explicitamente em ferramentas virtuais como as da internet, o não entendimento pode alcançar níveis quintessenciais.

Você pode, por exemplo, subentender o que foi escrito em emojis por um remetente que quis ser óbvio. Para ele, é óbvio que a imagem de duas mãos fazendo um movimento que parece um “adeus, tchau, olá, estou aqui”, um coração rosa brilhante, um trevo de quatro folhas e uma flor querem dizer: “Olá, meu coração brilhante deseja a você boa sorte e uma vida cheia de flor”. Mas, eu posso ler: “Adeus, flor! Que seu coração seja brilhante e você tenha boa sorte”, ou ainda, “uma flor para você que faz meu coração ficar brilhante e ter sorte”. Sei lá...Não sei mesmo. Pode ser qualquer coisa. Ou então, o escritor pode ter querido o contrário: que você captasse uma mensagem oculta sob o que as palavras disseram objetivamente. Isso acontece, por exemplo, quando alguém lhe envia um cartão virtual com frases prontas da internet, e deixa por sua conta a interpretação do que ele teria querido dizer com palavras que não são as suas próprias. Além disso, quando não há a presença de um outro na sua frente que possa reagir ao seu óbvio, às vezes aprovando, mas também possivelmente contestando, você pode sentir a tentação de ensimesmar-se em seu óbvio, retirando-se da interação justamente na hora em que é vez do outro expor um óbvio talvez diferente do seu.

Diante disso, tenho preferido as antiguidades, que serão sempre modernas. Insisto na “face” (rosto) e não no “feice” (de facebook). Insisto no telefonema. Insisto no bilhete escrito no papel com caneta. Insisto na palavra dita, escrita, explicada, sem escassez. Demasiada. Intensa. Gaguejada. Feita e refeita. Sem ícones. Acredito no diálogo, que é feito de dois: um que se esvazia enquanto o outro fala do seu cheio, alternando a vez. Creio que teremos mais chances de nos entendermos se nos antropofagiarmos em busca do ponto comum, onde eu, que sou eu, e você que é você, pode vir a ser um nós. 

Comentários a esse texto: eliane.martins.oliveira@gmail.com

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